Expresso Negreiro


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Expresso Negreiro

A noite está escura e gelada. Um frio que faz os dentes rangerem e o som assustador que sai da boca dos que ainda respiram deixa a madrugada ainda mais aterrorizante.

As ruas da pequena cidade de Valparaíso, estão vazias e mal iluminadas. Apenas um farolete da casa de Dona Juju – a casa alegre – pisca intermitente aguardando o último cliente sair.

Essa cidade já foi palco de muitas ilusões e histórias sinistras além de estrangeirismos e lendas folclóricas. Tudo acontece em Valparaíso.

Pietro saiu cambaleando de Dona Juju, mostrava que a noite havia sido regada a bebidas fortes e perfumes baratos. Assim que o molambento atravessou a pequena porta de aço, a rua ficou numa penumbra total.

Ele ficou ali, por uns minutos, olhando para os dois lados da viela. Não lembrava se precisava subir ou descer para ir em direção ao seu lar. Balançou a cabeça, se espreguiçou e resolveu descer a pequena ladeira, afinal, chegar ou não em casa era algo que não precisava se preocupar; já que ninguém mais o esperava por lá.

As pernas mal se aguentavam com o corpo, a cada dois passos arrastados que dava, um quase o deixava cair.

Assim que terminou a viela, avistou do outro lado da avenida, que durante o dia é intransitável de transeuntes e veículos, um pequeno banco ao lado de um ponto de ônibus. Pietro sabia que nas madrugadas a dentro não havia circulação do transporte público, então era sua única opção esperar o dia amanhecer para seguir o seu rumo.

Pietro se acomodou no pequeno banco de cimento e relaxou suas costas no encosto de ferro tombando lentamente sua cabeça para frente. Num ímpeto de se entregar ao sono característico da vida boêmia, um vento gélido assoprou em sua nuca, deixando os seus ralos pelos louros, levantarem em direção de alerta.

– O quê?

Abriu os seus olhos e movimentou sua cabeça para os lados. As pestanas voltaram a ficar pesadas e como antes, o peso da cabeça tombou em seu peito. Mais uma lufada de vento percorreu todo o seu pescoço.

– Hã? – o corpo sacolejou – Quem está aí?

Até onde sua visão o permitia enxergar, viu dois luminosos faróis seguindo em sua direção. Não, com certeza estava muito alcoolizado, pensava, não era possível a uma hora daquelas alguém transitar por ali.

A luz foi ficando mais densa e contínua. Pietro forçou o corpo para a frente e fixou seus olhos naquela paisagem. Os pelos de todo o seu corpo se eriçaram e já não sentia as zonzeiras da bebedeira.

“Um ônibus, claro” – ele pensou, e rapidamente levantou-se e ajeitou o paletó e a gola surrada da camisa. Elevou com dificuldade o braço para fazer sinal ao estranho transporte.

Silenciosamente o veículo parou na sua frente e continuava perturbadoramente escuro dentro dele. Pietro bateu na pequena divisória de vidro e a porta rangeu vagarosamente ao abrir.

Sem pestanejar e se quer olhar antes de entrar, Pietro rapidamente subiu os degraus e só se preocupou em levantar a cabeça para encarar o motorista quando a porta se fechou atrás de si e uma voz apavorante lhe desejou boa noite.

Foi neste momento que seus olhos visualizaram a pior imagem cadavérica que alguém poderia imaginá-la.

– Pronto para o inferno, Pietro?

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